O dia em que eu ouvi o Dalai Lama

sábado, dezembro 17, 2016

Dalai Lama sendo fofo e jovem! Foto veio daqui.


Como eu já contei nesse post, o Dalai Lama vive em Mcleod Ganj, uma vila perto de Dharamshala, no norte da ndia, encravada nos pés dos Himalaias.

Líder espiritual do budismo e patrono do Tibet, o Dalai Lama é considerado a manifestação do Avalokiteshvara, o bodhisattva da Compaixão. Bodhisattva é um ser iluminado que adiou seu nirvana para voltar à Terra e servir à humanidade.

Monge reza durante o amanhecer em McLeod Ganj


A incrível história do Dalai Lama


Aos dois anos de idade, Tenzin Gyatso foi reconhecido como a encarnação do seu predecessor e recebeu o título de 14º Dalai Lama. Com apenas 15 anos ele teve que assumir como chefe de estado e de governo do Tibet e se viu bem no meio do conflito sino-tibetano, tendo que lidar com a ocupação chinesa em seu país e sucessivos levantes de rebeldes.

Aos 4 anos de idade. Foto veio daqui.



Apesar de sua incansável busca por uma solução pacífica e negociada com a China, o Dalai Lama teve que deixar o Tibet, fugindo do exército chinês quando as tensões entre os países chegaram ao ápice, em 1959, durante um grande levante tibetano.

A fuga aconteceu por causa de um convite suspeito: durante as festividades do ano novo em Lhasa, com a cidade cheia de cidadãos, monges e peregrinos, o Dalai Lama foi chamado a visitar a Sede do Exército Comunista Chinês, para ver uma apresentação de dança. Mas teria de ir SOZINHO, sem militares, sem assessores. A maior autoridade tibetana aparecer assim, ~de boa~, para um cafezinho com o exército chinês, com o clima entre os dois países cada vez mais tenso, depois de anos de disputas e guerrilha entre rebeldes tibetanos e o exército chinês. *é uma cilada, bino!* 

Conta-se que os monges já se preparavam para morrer e a mãe do Dalai Lama chorava o iminente extermínio de seu filho. Foi então que a fuga tornou-se inevitável. Vestidos como militares, Sua Santidade e cerca de 20 pessoas, entre guardas, assessores e familiares, deixaram Lhasa às escondidas e iniciaram sua épica caminhada de 15 dias pelos Himalaias, descansando de dia em monastérios e acampamentos pelo caminho e caminhando durante as gélidas noites de março pelas montanhas.

Registros da fuga pelos Himalaias. Todas as fotos vieram daqui.



































Ele só tinha 23 anos e fugiu do exército chinês. Ele só tinha 23 anos e liderou um país ocupado, perseguido cultural e religiosamente, destroçado por uma guerrilha de anos. Ele só tinha 23 anos e viu as tradições e a religião dele e de seu povo serem sistematicamente atacadas. Ele só tinha 23 anos e viu compatriotas morrerem por resistir a uma ocupação estrangeira. Ele só tinha 23 anos e, apesar de tudo isso, conseguiu resistir ao discurso fácil do ódio e da violência, afirmando que nenhuma paz verdadeira pode ser obtida com armas.

“Como um representante livre dos meus compatriotas cativos, sinto que é meu dever falar em nome deles. Não falo com um sentimento de raiva ou ódio contra aqueles que são os responsáveis pelos imensos sofrimentos do nosso povo e pela destruição de nossa terra, das nossas casas e da nossa cultura. Eles também são seres humanos que lutam para encontrar a felicidade e merecem a nossa compaixão. Falo para informá-los da triste situação atual do meu país e das aspirações do meu povo porque, em nossa luta pela liberdade, a verdade é a única arma que possuímos” (Dalai Lama em seu discurso ao ganhar o Prêmio Nobel da Paz, em 1989).

Em Lhasa, o levante tibetano chegou ao fim derrotado, com guerrilheiros mortos ou deportados, o governo tibetano dissolvido e a nomeação de novo líder espiritual, pró-China, Panchen Lama.
O povo tibetano conseguiu se organizar no exílio, estabelecendo um governo, parlamento e constituição. Atualmente, o Dalai Lama defende a “abordagem do caminho do meio” – a busca por autonomia genuína em seu território, abrindo mão da independência do Tibet.


Ouvindo o Dalai Lama


Eu não sabia muita coisa sobre a história do Dalai Lama e do Tibet até visitar Mcleod Ganj. Quase sem querer, descobrimos que Sua Santidade estaria em casa durante nossa estadia e daria uma palestra para um conjunto de budistas taiwaneses, em passagem pela cidade. Quase sem querer também, descobrimos que as palestras são abertas para todos os interessados, bastava fazer uma inscrição. Então, no dia seguinte, acordamos cedinho e fomos para o Complexo Tsuglagkhang, onde ele falaria.

Tudo era muito simples. O complexo parecia uma construção que foi crescendo aos poucos – faz um puxadinho aqui, bate uma laje acolá. Milhares de monges circulavam com suas vestes vermelhas e suas cabeças raspadas.

A entrada do Complexo Tsuglagkhang
Chegando próximo ao local onde o líder estava, já havia muita gente. Gente sentada pelo chão, encostada nas pilastras, anotando coisas em caderninhos, com olhos fechados, como se estivessem em oração. Tinha gente de todo o tipo. Velhinhos e velhinhas, hippies, mauricinhos, monges, famílias inteiras, grupos de jovens, gente branca, negra, asiática...

Como estava muito cheio, as pessoas iam ocupando todas as salas e áreas contíguas ao salão onde ficava o Dalai Lama. Sentamos numa área aberta, com chão de cimento batido e a luz do sol filtrada pelos pinheiros que a cercavam. Mas não dava para enxergá-lo dali. Então, no meio da palestra, decidi avançar pelo meio das pessoas para ter a chance de vê-lo.

Simpático e sereno, o Dalai Lama estava numa cadeira, de onde costuma dar suas palestras no complexo, cercado por muitos monges jovens sentados no chão. O grupo de Taiwan estava à sua esquerda.

Você olhava na cara das pessoas próximas a ele e elas tinham um sorriso no rosto. Todos o olhavam com admiração e respeito. Estávamos diante de alguém muito especial e dava para sentir essa sensação no ar.

Para conseguir ouvir a tradução simultânea da palestra, é preciso ter um radinho, que compramos logo na entrada do complexo. Como a tradução era muito ruim e o radinho vagabundo, foi difícil acompanhar todas as partes da conversa. Além disso, o radinho nos deixou na mão e, antes mesmo da palestra terminar, a pilha acabou... Mas lembro que o Dalai Lama perguntou se podíamos apontar a nossa tristeza, nossa decepção ou nossa intranquilidade. Se nos pedissem para que apontássemos para eles, seríamos capazes? E ele seguiu, afirmando que não, porque esses sentimentos não fazem parte das condições objetivas da nossa vida – não estão no mundo ou nas situações que vivenciamos, mas em como nós lidamos com eles. Por isso, é importante fortalecermos nossa vida espiritual e nossa paz interior, para conseguirmos lidar com sabedoria e felicidade com as questões que a vida nos coloca, mesmo as mais difíceis.

Talvez as palavras não tenham sido exatamente essas, mas foi essa mensagem que levei comigo daquela manhã em que ouvi o Dalai Lama.

Para saber quando o líder tibetano dará palestras, dá uma olhada em seu site oficial.

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